Um Feliz Natal cheio de paz e amor para todos
Perfil:
O olhar terno atrai, a robustez não me é estranha, a voz mansa e forte chega a ser quase reconhecível, até parece que ele saiu do mais profundo do meu imaginário só para se personificar em mais um final de ano. São 17h; final da tarde de um sábado, mas não é de um sábado comum, pelo menos para mim não.
Hoje é o primeiro sábado de dezembro e a primeira vez que vou conversar com um Papai Noel sem que tenha que ser auxiliada por alguma de suas ajudantes que insistem em serem chamadas de “duendes”. Nunca tive uma boa relação com “Papais Noeis”, e confesso que nas fotos que tenho ao lado dele, geralmente estou fugindo ou de cara feia.
Tumulto no shopping, a decoração brilha, enche os olhos. Aproximo-me lentamente como se faltasse coragem para o primeiro contato. Não resisto e recuo, prefiro ficar apenas observando de longe, sento num canto privilegiado, enquanto isso vejo os flashes por trás das minhas costas.
Os pingüins, as árvores enfeitadas com grandes bolas douradas e laços vermelhos fazem uma volta em um pinheiro gigante ao centro; a infinidade de luzinhas azuis deixa os adultos bobos.
Hoje as crianças fazem a festa. Enquanto isso, os pais se desdobram , atendem o celular, cuidam do bebe , vigiam a bolsa e tentam segurar a criança fujona que consegue burlar o cerco e abraçar o bom velhinho outra vez. Nem todos irão tirar foto.
Fico assustada quando chego lá, nunca tinha visto tantas crianças querendo uma foto e um abraço do Papai Noel; e essa façanha não sai por menos de R$ 20,00. Uma ajudante vem e arruma a criança no colo dele, o sorriso tímido na foto parece ter medo. Ele tenta fazer a criança rir, mas quem acaba rindo é ele, o velho ajeita o vestido da menina e pede discretamente que ela feche sua perna; o fotógrafo pergunta se está bom, ele faz um sinal e a foto é batida.
O filho não quer desgrudar do pai ele chora, grita e esperneia, parece não gostar do velhinho, mas a mãe está irredutível, ela quer a foto. Uns aproveitam para realizar seu sonho de infância, então o pai leva as filhas e acaba saindo na foto também.
Sai a criança, ele toma uma água e se ajeita na poltrona, parece que já lhe doem as costas; ele levanta, dá uma andadinha pelo cenário, vem perto de onde estou, me olha, ele me reconhece; parece não acreditar que voltei, mesmo depois de ter marcado há duas semanas, me dá um grande abraço e marca uma outra entrevista . Eu prometo: volto na segunda as18h.
Segunda-feira. Chove exatamente às 18h, tento ir para o shopping, mas não consigo; dentro de casa a ansiedade, e na rua, cai um pé d’água. Quase uma hora depois consigo chegar ao lugar marcado; ele já está rodeado de crianças. Ele abraça, beija dá algumas balas, ouve pedidos inocentes e esperançosos de Natal e apenas sorri.
Ele levanta, vem, me cumprimenta com um abraço e se assenta ao meu lado; acho que agora não tem mais escapatória , começa a entrevista.
O descendente de italiano, Leonardo Tomazzi é do interior de Minas e mora em BH há 60 anos; é casado há mais de 30, tem 11 filhos e já foi comerciante. Há 12 anos foi escolhido por um grupo de amigos para fazer uma apresentação de natal em uma confraternização de fim de ano. A partir desse dia, Leonardo nunca mais deixou de ser Papai Noel. O bendito apelido dado pelos amigos se tornou uma forma de ganhar dinheiro e lutar por uma ideologia.
Hoje, Tomazzi, além de ser o Papai Noel oficial de Belo Horizonte, foi escolhido como o mais parecido Papai Noel da América do Sul. Leonardo é também o Papai Noel da Coca-Cola, faz diversas propagandas para empresas variadas e 10 multinacionais. Seu rosto está estampado em aproximadamente 700 outdoors em todo o Brasil.
Segundo ele mesmo diz, brincando e sorrindo, é Papai Noel 24 horas por dia durante os doze meses do ano, porque além de ser uma satisfação pessoal, ele também é presidente honorário de uma creche no bairro Primeiro de Maio, um dos mais violentos da capital. A creche Dora Ribeiro, que leva o nome de uma senhora de 92 anos, funciona há 42 e é dividida em dois núcleos que atende a 174 crianças da comunidade; dessas, 47 são portadoras de deficiência.
Além da contribuição dada por Leonardo, a creche também conta com a ajuda de 40 voluntários, dentre eles psicólogos, médicos e dentistas que dão assistência gratuita às crianças.
Para ajudar na renda da instituição, Tomazzi está construindo a Vila permanente do papai Noel que será localizada a 30km de BH. Há sete anos, Leonardo vem tentando realizar esse projeto, porém a falta de patrocínio está lhe prejudicando, muitas empresas o procuram exigindo exclusividade de anúncio, mas esse não é o objetivo do projeto. Segundo ele, tudo o que será ganho com a Vila será revertido para os projetos sociais nos quais preside.
Quem vê o rosto do bom velhinho não imagina que o Leonardo Tomazzi tem dois cursos superiores, fala sete idiomas, já morou na Europa, Estados Unidos e Canadá. Ao todo o papai Noel brasileiro conhece 42 países.
Tomazzi passa mais de oito horas diretas dividido entre três shoppings, campanhas publicitárias, sorrisos, abraços, crianças, balas, pedidos e fotos; quase não lhe sobra tempo para se alimentar. Fim de ano é assim mesmo, diz o velho entusiasmado. Parece gostar do que faz.
De todas as suas alegrias e dificuldades ao longo desses anos, a maior delas, é ter que escutar os pedido e não poder realizá-los; mas isso não o desanima, basta apenas ver a alegria e o brilho nos olhos das crianças, e não se precisa ouvir palavra alguma.
Observo as falas do Papai Noel, Leonardo sempre volta no mesmo assunto. Ele fala sobre a carência e a necessidade de se ajudar. Para ele, se você tiver dentro de si o interesse de ajudar alguém, você consegue ajudar, e se hoje começa com uma pessoa, amanhã será duas, depois três, quatro e assim por diante. A tendência é sempre aumentar a corrente.
Antes de finalizar a entrevista, confesso que em meu pensamento houve uma mudança; pedi que o papai Noel deixasse uma mensagem de fim de ano e ele simplesmente disse : “Que os adultos consigam ensinar a essas crianças a importância de se fazer o bem e de ajudar o próximo. O mundo anda carente de paz, amor e de respeito.Eu só desejo que elas tenham paz, segurança, saúde e educação”.
Hoje, parece que papai Noel saiu do meu subconsciente e se personificou nessa figura, acho que ele retornou de um lugar onde eu o havia enterrado desde o dia em que eu descobri que ele não existia.
O olho azul embaçado mostra a idade. As lágrimas correm nos olhos do papai Noel; nos olhos do Leonardo e nos olhos da repórter que burla todas as normas jornalísticas do que é certo e errado, e chora. Esse não foi só mais um perfil, mas uma lição de vida.