“Estranho seria se eu não me apaixonasse por você” foi a frase que ela ouviu enquanto remexia em uma caixa antiga que estava guardada bem debaixo do sofazinho no canto do quarto. No cômodo só se ouviam dois barulhos: o roçar das folhas e a música que enchia o lugar de nostalgia. Não era exatamente nostalgia, a palavra certa para definir aquilo que ela estava sentindo, mas havia uma atmosfera que de certa forma a constrangia. Não estava acostumada a remexer no seu passado, a revirar seus “baús” que de tão velhos estavam empoeirados.A mão gelada passava friamente em cartas que já foram tão cheias de sentimento e hoje são apenas papeis corroídos pelo tempo. Ela parou, pensou e continuou a ler. Parecia que lhe faltava força, escorreu lentamente pela parede e se assentou no chão. Puxou a caixa para mais perto e continuou revirando. Ao correr os olhos sobre aquelas tralhas - como ela mesmo havia dito a alguns estantes, quando criou coragem para abrir a caixa – se deparou com uma que lhe chamara a atenção.
O pequeno cartão dentro de um envelope azul com girassóis na borda, não era um simples cartão. O cheiro fraco de perfume ainda estava no papel, as letras escritas em preto diziam lentamente “eu-vou-te-amar-para-sempre”. Virou o lado oposto e viu a marca de uma lagrima. Não sabia de quem era, na verdade não queria lembrar que a marca tinha sido feita por ela mesma. Pensou: É bobagem! ler isso tudo novamente, não faz sentido. Guardou o cartão.
De fato não estava sendo fácil ficar sozinha e muito menos ler um pedaço da sua vida impresso em cartas tão dóceis e sensíveis, já que a sensibilidade parecia ter-lhe fugido desde o dia em que resolveu não gostar de mais ninguém.
Juntou todas as cartas em um amontoado de lembranças e começou a rasgar lentamente. Parou mais uma vez. Colocou-as no chão perdendo toda a coragem que juntara nesses dois anos e meio. Por alguns instantes pensou em não continuar o que estava fazendo. Mas achou ser bobagem manter o que pra ela não tinha mais “importância”.
Levantou subitamente, pegou a sacola mais bonita que tinha e colocou tudo lá dentro. "Hoje peço alguém que jogue isso fora pra mim", disse baixinho. Nesse instante lembrou dos risos, das lagrimas, dos beijos, das mãos dadas, das palavras faladas, do amor perdido, do coração partido. Jogou tudo no chão outra vez e tomou a decisão: Guardar tudo de novo em outro lugar.
Organizou bem as cartas, dobrou tudo como antes, tirou a poeira, limpou a caixa e colocou um papel de seda novo em volta de suas “relíquias”. Levantou segurando a caixa contra o peito, passou a mão na cabeça e colocou o objeto no fundo do guarda-roupa. Ela sentiu uma tímida lágrima escorrer pelo canto dos olhos. O silêncio agora era interno.
Desligou o som; a música que ela tanto amava lhe fazia mal. Arrumou o sofá e apagou a luz. Enquanto seguia para o banheiro pensou indignada. Estranho é - se convencer de que - não ter de quem gostar.
